Uma reflexão sobre o Waze e os caminhos do cotidiano

“Vê no Waze qual a rota mais rápida!”
Frase tão comum e corriqueira. Até diária. Ao sairmos para o trabalho ou do trabalho para casa, mesmo quando passamos pelos mesmos lugares, mesmos caminhos, queremos porque queremos saber qual a rota mais rápida – não importa se os lugares são cotidianos.
Há quem não saia de casa sem consultar o Waze.
Confesso que gosto quando a máquina confirma a rota que eu queria fazer antes de consultá-la. E quando “erro” de propósito o caminho para forçar o recálculo. E aí, como mágica, a rota que eu queria aparece nas opções possíveis. Fico frustrado com a máquina: “por que não me mostrou antes?. Mas gosto ainda mais quando, embora já nessa outra rota, o tempo até o destino não muda – para minha surpresa.
Porém, às vezes, não dou sorte. Corro risco. O recálculo dá diferença. “Cinco minutos a mais!” – uma tragédia!
Mas, ainda assim, eu me sujeito a isso. Por quê?
Não quero desafiar a máquina. Sei que não quero porque convivo com meu pai – que ativamente busca desafiá-la. Ele tem certeza de que sabe mais do que o Waze. Que conhece mais os caminhos. Que já tem o projeto da cidade na cabeça há muito mais tempo do que o satélite. Que sabe quais ruas são, normalmente, engarrafadas e quais não são.
O problema dele é que a projeção da malha viária carioca na sua cabeça anda desatualizada cerca de vinte anos. Desconsidera as obras no Centro e até na Av. Brasil. Vez em muito, o projeto de malha que ele tem na cabeça e a malha real, a rua que existe, o engarrafamento que estava ali, colidem. Ele perde tempo – e nós perdemos junto quando ele e sua aversão tecnológica estão no volante. Faça chuva ou sol, ele não aceita de jeito nenhum usar o Waze.
Eu não sou como ele. Pertenço à geração que só raramente precisou gravar nomes de rua – gravo mais por afeto do que por qualquer outra razão, e invejo quem consegue dar instrução de direção sem olhar um mapa e, mais ainda, quem consegue entender a instrução.
Também não sou um zero à esquerda. Tenho alguma projeção dos quarteirões do Rio na minha cabeça sim. Mas nunca precisei gravar. A minha memória nunca foi um recurso de geolocalização na cidade, de sobrevivência até – como foi para ele. Desde que comecei a me aventurar sozinho pela cidade e a dirigir também, já havia Google Maps, Waze e outros. Já havia GPS.
Mas é fato que meu pai não sabe mais que o Waze.
Na verdade… nem mais nem menos. Essa comparação está errada na premissa. Da mesma forma que meu pai não sabe mais do que uma pedra.
A questão não é meu pai, mas a pedra – e o Waze.
Pedra sabe algo?
Se fôssemos buscar a essência do que é a rota traçada pelo Waze, ficaríamos abismados ao perceber que, no fundo, bem no fundo, é uma resposta de pedra.
Explico:
Waze é um aplicativo, é claro. Que “roda” nos celulares, nos painéis inteligentes de carros e outras plataformas. É um aplicativo que precisa de um sistema operacional (como Android, iOS, MacOS, Windows, Linux etc.).
Já o sistema operacional é uma interface que permite que nós, usuários, interajamos com o computador.
O computador pode ser qualquer coisa que compute – inclusive já chamamos pessoas de computadores, era uma profissão. Mas hoje, nos referimos a computador como sendo tudo aquilo que computa os bits. E o cerne de um computador, que faz o trabalho essencial da computação é o processador – que é feito de silício.
Silício é pedra. Mineral.
É claro que isso tudo é uma grande simplificação. Mas que funciona como recurso analítico. Despe o cotidiano – para vermos essência.
Temos, hoje, nas mãos, pedras que calculam. Pedras que comunicam. Que são capazes, inclusive, de nos comandar.
Mas elas continuam sem saber de nada. Mesmo aquelas pedras mais avançadas, as ditas “inteligências artificiais”, também não sabem nada – apesar de serem muito boas em fingimento.
Temos, hoje, uma espécie de pareidolia intelectual com essas pedras. Achamos inteligência nelas porque estamos procurando ativamente. Fazemos profecia autorrealizável.

Não podemos esquecer que são máquinas não de dizer, mas de predizer – há um mundo de diferença nisso.
No dizer, há intenção. No predizer há somente dados. Podem ser expressos em palavras e números, mas o que dizem? Para saber, é preciso interpretar. Para interpretar, paradoxalmente, é preciso, antes, saber.
Por isso, meu pai sabe mais do que o Waze – porque o Waze, pedra que é, não sabe. Por isso eu sei mais do que o Waze também, apesar de só conseguir nomear de cabeça meia-dúzia de ruas aqui e ali.
O Waze tem os dados. Tem as ruas, tem o número de carros que passam em determinado lugar num momento específico, tem estimados os horários de trânsito maior ou menor, recebe os inputs de usuários que informam se há acidentes, buracos, blitz e tudo mais; é capaz de cruzar esses dados para nos fornecer – com muita precisão – a rota mais eficiente.
Mas não é rota de gente. É rota de pedra!
O cálculo que faz sobre os itinerários é frio – porque também é cálculo de pedra. Equaciona tempo e distância como indicadores objetivos. São uma linha algorítmica, uma expressão matemática.
Por isso, para nos “poupar” cinco minutos, traça rotas muitas vezes “esquisitas”. O Waze não sabe que são “esquisitas”, só cumpre com aquilo para o que foi programado: predição.
O Waze nunca andou pelas ruas pelas quais indica passar.
Ele não tem nada a dizer sobre elas. Não sabe se são muito estreitas para o meu carro. Ou muito escuras. Ou muito íngremes. Ou se empoçam muito em dias de chuva. Ou se, simplesmente, eu não gosto daquela rua ou de outra rua.
O Waze não gosta nem desgosta de rua nenhuma.
Nem nunca sentiu dor na perna de passar embreagem no anda-para do engarrafamento. Nem nunca sentiu medo de assalto. Nem “aproveitou” que estava passando em frente a uma padaria para levar pão para casa – ou bolo.
Para o Waze, não faz sentido fazer uma parada para o café. Não faz sentido para ele que, dependendo do trânsito, eu prefira fazer uma parada de passatempo para esperar o engarrafamento escoar, ainda que isso me consuma mais tempo – porque me irrita mais o engarrafamento.
Nada disso ele computa.
O mero dado cartográfico – que é o que o Waze efetivamente computa – não é suficiente para informar, apesar de acharmos que sim. Ao sugerir uma rota, não avalia nenhuma outra questão que não a rota em si. Pode nos mandar para uma estrada de barro para “economizar” cinco minutos – que, na prática, com chuva, representarão um atraso de 20 minutos na verdade (com sorte, se o carro não atolar).
A predição dele é limitada – como a nossa também é. E se o criador é imperfeito, que dizer da criatura?
Acho que o Waze é como um agente de viagens que te oferece um roteiro de viagem para um lugar que ele mesmo nunca foi – “ouvi dizer que lá é lindo!”. Será que tudo que cospe é javanês?
Muitas vezes, vou para o Flamengo por questões de trabalho. Há várias rotas que já conheço. Posso ir pelo Santa Bárbara, pela Presidente Vargas e Rio Branco, posso ir pela Lapa, posso ir pelo Aterro… a minha rota preferida.
Às vezes, para economizar dois ou cinco minutos, ele não me fornece o Aterro do Flamengo como opção. Recomenda o túnel Santa Bárbara e a quase inatravessável Pinheiro Machado (na qual há uma constante apenas: engarrafamento, em qualquer horário e qualquer dia. Peço aos matemáticos que estudem esse fenômeno). Tem muito trânsito nessa rota. Anda-para, anda-para. Inclusive dentro do túnel, em que falta internet e a música, às vezes, também anda e para.
O Waze não sabe de nada disso.
Não sabe que o tempo objetivo, contado e medido nos segundos, não é igual ao tempo subjetivo, sentido.
Eu tenho certeza de que sempre chego mais rápido quando vou pelo Aterro do Flamengo – ou é o que sinto. E o que importa mais, no fim das contas?
Diz Walter Lippmann que “cada um de nós vive e trabalha numa pequena parte da superfície da Terra, move-se num pequeno círculo, e destas coisas familiares conhece somente algumas intimamente”. Quando passamos por essa pequena parte da Terra, ela é nossa – e nós somos dela. Quanto mais passarmos, mais íntimos ficamos. E mais o caminho vai se tornando também um pouco casa.
Meu pai tem essa intimidade com as ruas que frequentava. Vez em quando, diz: “mudaram a mão dessa rua”, “aqui era só paralelepípedo, uma ‘merda”, “atravessava isso tudo aqui à noite”, “aqui tinha um bar, mas fechou”. Eu, passante apressado, GPS-ficado, não saberia de nada disso. O que meu pai relata é uma janela não só para o passado, mas até para ele próprio.
A rua conduz a conversa.
Eu não poderia tê-la com outra pessoa.
Lembro-me também das conversas que tenho com minha mãe, quando pego carona com ela para a Zona Sul. Aqui perto de casa, há vários prédios antigos encantadores – e malcuidados. Mas eu, quando passo por eles, sempre fico feliz ao saber que (ao menos) ainda estão de pé. E digo a minha mãe: “pelo estilo, esse é dos anos 40”, “olha o pórtico: ‘1898’, esse é ‘guerreiro’”, “sabia que aqui tinha uma parada de bonde, no início do século XX?”.

A rua que eu vejo é diferente da que ela vê. É diferente da que o meu pai vê. E também diferente da que você, leitor, vê.
O Waze nunca viu uma paisagem. Nunca se sentiu acolhido por ela, espantado, maravilhado por ela.
Por isso, eu prefiro ir pelo Aterro do Flamengo. Mato saudade do Pão de Açúcar – que é outra pedra que não sabe, mas é pedra que se sente; pedra imponente e que pode até nos ensinar. Pedra que é poesia.
Como no “A Educação Pela Pedra”, de João Cabral de Melo Neto:
Uma educação pela pedra: por lições; Para aprender da pedra, frequentá-la; Captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria Ao que flui e a fluir, a ser maleada; A de poética, sua carnadura concreta; A de economia, seu adensar-se compacta: Lições da pedra (de fora para dentro, Cartilha muda), para quem soletrá-la. (…)
Quando faço essa rota, a pedra me ensina. Quando me ensina, sei. E, sabendo, algo tenho a dizer. E agora digo com o presente texto essas minhas tais intimidades.
E também prefiro passar pelas ruas do meu bairro, Todos os Santos, com os olhos atentos aos casebres que me chegam de outros séculos. Quando viro íntimo deles, eu me inspiro. Se eu tomasse outra rota, talvez não tivesse as ideias que tive. Talvez, por passar tanto por eles, eu seja quem sou – quem vai saber?
O Waze seria incapaz de sugerir rotas educativas como essas. Ou rotas afetivas. Ou rotas poéticas que suspendam, momentaneamente, o tempo do relógio e exprimam o tempo do sentimento.
Diz Antonio Cicero que o poema (ou, no caso, a poesia – que é algo além do texto poético) tem esse poder de suspender o tempo. Tanto do poeta quanto do leitor. Ler uma paisagem é poesia. Suspende o tempo. A contemplação não se submete à rigidez dos tiquetaques. São os tiquetaques que se submetem a ela. Em respeito, o relógio faz silêncio. E aí pode ter poesia.

Por isso, pedra contra pedra, eu prefiro olhar o Pão de Açúcar do que a frieza da tela. Deixo que o morro calcule minha rota, mais sentimentalmente precisa do que consegue o Waze.
*
Guilherme Lagos
Rio de Janeiro (Todos os Santos), 11 de maio de 2026.
Modificado em 12 de maio de 2026.
Agradecimentos
Agradeço a Pérola Kim pelo diálogo no carro que me ajudou a completar esse ensaio. E pela indicação do texto de Walter Lippmann.


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