Conversar por igual é política glotal!
Em uma entrevista que escutava, ouvi a jornalista mascando todas as consoantes inglesas ao recitar o nome Donald Trump. Sotaque impecável — de lá, não daqui. Americanizadamente.
A princípio, não dei bola. Afinal, o que há para se estranhar? Primeiro: já não estamos acostumados a isso? Segundo: o nome não é de origem anglófona? Sim para as duas perguntas. Então, e daí?
Foi aí que me lembrei de outro presidente americano. Mais pretérito: James Monroe — que emprestou seu nome ao Palácio eclético que ficava na nossa Cinelândia. O presidente que criou a ideia de pan-americanismo — que na verdade não passa de justificativa para o estabelecimento de uma zona de influência política em tamanho continental para os EUA.

Eu, que nasci no Rio de Janeiro pós-demolido, não vi o Palácio Monroe de pé. Meu primeiro contato com ele, portanto, não foi vendo-o ao vivo, nem ouvindo em conversa: foi lido. Em livros, jornais antigos. Eu que falo inglês, tiquei instantaneamente: “Palácio Monrowl”. Enrolando todas as consoantes. Ao arrepio da minha lusofonia.
Eis que me interessei naquela sua história. Fui falando com outras pessoas sobre o tema. Alguns mais velhos, contudo, não tinham ideia de que palácio era esse de que eu tanto falava. Gente que certamente viu o prédio em pé — e não era um edifício que passava batido. Estranhei aquilo. Fui descrevendo o edifício e aí, pimba: “Ah, o Mônroi”. Cariocamente pronunciado. Ao arrepio do meu diploma do Cultura Inglesa.
Eu não estava pronunciando certo. Eu! Quer dizer, estava. Mas para padrões do norte do Equador — onde eu não estava.
Hoje, mesmo sabendo disso, não consigo dominar a língua. Foi cautelosamente treinada para o padrão ianque. Quando vejo tais consoantes, ela se contorce sozinha. Talvez seja estresse pós-traumático.
Acabo ficando com “Monrowl”. Mesmo que não queira. Perdi a minha soberania linguística.
Ainda nessa reflexão, percebi que mesmo outros presidentes dos EUA não caem na malha da contorção palatal. Obama é universal. Não há nenhum George que não vire rapidamente Jorge. Mesmo o Washington transfigura em “Uóxintom”. O Bush é “Búshi”, não é ‘“Bãsh”. Franklin ou Theodore Roosevelt viram “Rúsivelti”.
Donald Trump deveria virar “Dônaldi Trúmpi” ou “Trãmpi”.
Confesso que, deixando de enrolar a língua, seu nome perde a imponência. “Donaldi”, aqui, remete tão somente ao Pato.
E essa, talvez, seja a melhor arma linguística que temos frente aos avanços imperialistas americanos. Tenaz tanto quanto ineficaz.
No dia em que os americanos tentarem anasalar o “ão”, reconversamos — isso deveria ir à mesa de negociações (alô, Lula!). Ou pelo menos acertar o “lh”, mas isso é um problema pessoal — meu nome é o mais anti-anglófono de toda a língua portuguesa. Sei disso empiricamente. Mais até do que João!

João, no caso, pode ser João Cabral. Em seu “A Educação pela Pedra”, o poeta diz que a primeira lição que a pedra ensina, com sua voz “inenfática, impessoal”, é a de dicção (será que é a pedra que nos ensina a anasalar?). Depois, a de moral: “sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada”. A língua que aprende com a pedra, as pedras que “ulceram a boca”, não é facilmente maleável.
Às vezes, temos que contorcer as ideias para que caibam na boca. A língua que pronuncia mango tree não foi a de quem acabou de chupar uma manga da mangueira (parafraseando Fernando Meirelles). E tenho certeza de que o que dá o gosto bom do açaí é o cedilha (com o acento no “i” — aguda e deliciosa cobertura de vogal sorridente no rosto).
Ariano Suassuna, em uma de suas aulas-espetáculo (não “aulas-show”, como alguns dizem. Ele dizia que “show” era o som que faziam para espantar galinha na terra dele), lembra que copo, em inglês, é glass. Mas também é vidro. Então podemos ter um glass de glass ou um glass de plástico. Não só a língua, mas a própria ideia se contorce. Antes, olhe para o copo para ver se ele tem “jeito de glass”.
E sovereignty? tem jeito de soberania? Minha língua se sente mais à vontade com a segunda. Soberania não contorce igual sovereignty. Soberania é toda pronunciada. Todas as letras ditas de forma igual, respeitando uma ordem gramatical equânime, multilateral. Já sovereignty é embolada. As sílabas não são iguais. Algumas atropelam as outras. Tentam ser hegemônicas.
É uma questão de política glotal!

Fato é: enquanto este pacote de reciprocidade fonética não estiver definido, peço um apelo aos bilíngues, trilíngues, poliglotas do Atlântico Sul: não pronunciem nada que dê cãibras na língua. Em caso de emergência — se for inevitável falar Donald Trump em perfeito inglês nativo da Fordlândia —, fale. Mas, em seguida, trate de repetir, em sequência: mão, pão, avião, irmão.
Todas as vogais nasais mais lindas do português. Isso ajudará a restabelecer nossa soberania linguística.
E lembre-se dos versos de Gonçalves Dias:
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá
Somos terra de palmeiras, não de palm trees. Mango é só o Flamengo. Tax é só táxi, não tributação.
Tal e qual, só falo enrolado se for de igual para igual. Conjugar o verb to be com o verbo tupi. Retomaremos a soberania quando não formos obrigados a contorcer a língua para conversar.
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Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2025. Modificado e publicado em 25 de setembro de 2025.


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