Soberania é não contorcer a língua

Conversar por igual é política glotal!


Em uma entrevista que escutava, ouvi a jornalista mascando todas as consoantes inglesas ao recitar o nome Donald Trump. Sotaque impecável — de lá, não daqui. Americanizadamente.

A princípio, não dei bola. Afinal, o que há para se estranhar? Primeiro: já não estamos acostumados a isso? Segundo: o nome não é de origem anglófona? Sim para as duas perguntas. Então, e daí?

Foi aí que me lembrei de outro presidente americano. Mais pretérito: James Monroe — que emprestou seu nome ao Palácio eclético que ficava na nossa Cinelândia. O presidente que criou a ideia de pan-americanismo — que na verdade não passa de justificativa para o estabelecimento de uma zona de influência política em tamanho continental para os EUA. 

Cartão-postal do Palácio Monroe (circa 1912-1917). Coleção do Instituto Moreira Salles.

Eu, que nasci no Rio de Janeiro pós-demolido, não vi o Palácio Monroe de pé. Meu primeiro contato com ele, portanto, não foi vendo-o ao vivo, nem ouvindo em conversa: foi lido. Em livros, jornais antigos. Eu que falo inglês, tiquei instantaneamente: “Palácio Monrowl”. Enrolando todas as consoantes. Ao arrepio da minha lusofonia.

Eis que me interessei naquela sua história. Fui falando com outras pessoas sobre o tema. Alguns mais velhos, contudo, não tinham ideia de que palácio era esse de que eu tanto falava. Gente que certamente viu o prédio em pé — e não era um edifício que passava batido. Estranhei aquilo. Fui descrevendo o edifício e aí, pimba: “Ah, o Mônroi”. Cariocamente pronunciado. Ao arrepio do meu diploma do Cultura Inglesa. 

Eu não estava pronunciando certo. Eu! Quer dizer, estava. Mas para padrões do norte do Equador — onde eu não estava.

Hoje, mesmo sabendo disso, não consigo dominar a língua. Foi cautelosamente treinada para o padrão ianque. Quando vejo tais consoantes, ela se contorce sozinha. Talvez seja estresse pós-traumático. 

Acabo ficando com “Monrowl”. Mesmo que não queira. Perdi a minha soberania linguística. 

Ainda nessa reflexão, percebi que mesmo outros presidentes dos EUA não caem na malha da contorção palatal. Obama é universal. Não há nenhum George que não vire rapidamente Jorge. Mesmo o Washington transfigura em “Uóxintom”. O Bush é “Búshi”, não é ‘“Bãsh”. Franklin ou Theodore Roosevelt viram “Rúsivelti”.

Donald Trump deveria virar “Dônaldi Trúmpi” ou “Trãmpi”. 

Confesso que, deixando de enrolar a língua, seu nome perde a imponência. “Donaldi”, aqui, remete tão somente ao Pato. 

E essa, talvez, seja a melhor arma linguística que temos frente aos avanços imperialistas americanos. Tenaz tanto quanto ineficaz.

No dia em que os americanos tentarem anasalar o “ão”, reconversamos — isso deveria ir à mesa de negociações (alô, Lula!). Ou pelo menos acertar o “lh”, mas isso é um problema pessoal — meu nome é o mais anti-anglófono de toda a língua portuguesa. Sei disso empiricamente. Mais até do que João!

“Guilherme” se tornou “Gillianme” no Starbucks em frente ao British Museum.

João, no caso, pode ser João Cabral. Em seu “A Educação pela Pedra”, o poeta diz que a primeira lição que a pedra ensina, com sua voz “inenfática, impessoal”, é a de dicção (será que é a pedra que nos ensina a anasalar?). Depois, a de moral: “sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada”. A língua que aprende com a pedra, as pedras que “ulceram a boca”, não é facilmente maleável.

Às vezes, temos que contorcer as ideias para que caibam na boca. A língua que pronuncia mango tree não foi a de quem acabou de chupar uma manga da mangueira (parafraseando Fernando Meirelles). E tenho certeza de que o que dá o gosto bom do açaí é o cedilha (com o acento no “i” — aguda e deliciosa cobertura de vogal sorridente no rosto). 

Ariano Suassuna, em uma de suas aulas-espetáculo (não “aulas-show”, como alguns dizem. Ele dizia que “show” era o som que faziam para espantar galinha na terra dele), lembra que copo, em inglês, é glass. Mas também é vidro. Então podemos ter um glass de glass ou um glass de plástico. Não só a língua, mas a própria ideia se contorce. Antes, olhe para o copo para ver se ele tem “jeito de glass”.

sovereignty? tem jeito de soberania? Minha língua se sente mais à vontade com a segunda. Soberania não contorce igual sovereignty. Soberania é toda pronunciada. Todas as letras ditas de forma igual, respeitando uma ordem gramatical equânime, multilateral. Já sovereignty é embolada. As sílabas não são iguais. Algumas atropelam as outras. Tentam ser hegemônicas. 

É uma questão de política glotal!

Cartum sobre a doutrina Monroe. 1912.

Fato é: enquanto este pacote de reciprocidade fonética não estiver definido, peço um apelo aos bilíngues, trilíngues, poliglotas do Atlântico Sul: não pronunciem nada que dê cãibras na língua. Em caso de emergência — se for inevitável falar Donald Trump em perfeito inglês nativo da Fordlândia —, fale. Mas, em seguida, trate de repetir, em sequência: mão, pão, avião, irmão. 

Todas as vogais nasais mais lindas do português. Isso ajudará a restabelecer nossa soberania linguística. 

E lembre-se dos versos de Gonçalves Dias:

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá

Somos terra de palmeiras, não de palm treesMango é só o Flamengo. Tax é só táxi, não tributação. 

Tal e qual, só falo enrolado se for de igual para igual. Conjugar o verb to be com o verbo tupi. Retomaremos a soberania quando não formos obrigados a contorcer a língua para conversar.

*

Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2025. Modificado e publicado em 25 de setembro de 2025.

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