Fim de tarde no Arpoador. Ecoam os aplausos ao pôr do sol. Misturam-se ao barulhinho das ondas acariciando a areia. O barquinho vai, a tardinha cai abençoada pelos Dois Irmãos na paisagem divina. Do Leme ao Pontal, não há nada igual. Tradição carioca que já vem de décadas.
Alguns metros dali, desfilam as pessoas bronzeadas. Garotas e garotos em Ipanema. Uma delas vai virar musa inspiração para a maior canção brasileira conhecida no mundo.
Já a milhares de quilômetros de distância nesse imenso litoral, uma moça bonita repousa na praia de Boa Viagem em um domingo azul qualquer desses que fica marcado na memória dos artistas. Bom de musicar em uma esteira de vime, ouvindo o mar numa relaxante tarde em Itapuã.
A praia é palco da cultura. Produz e é produto dela. Ganha personalidade. Está na nossa música, na literatura, poesia, no cinema, na fotografia. É palco de shows, como foi recentemente o de Madonna na internacionalmente conhecida praia de Copacabana. Evento gratuito, como é a praia. Palco ainda de outros concertos, como os de Réveillon.
É religião. Lugar da religiosidade afro-brasileira. É das areias que saem os barcos com oferendas à Rainha do Mar. E o sincretismo nos toma conta, já o absorvemos. No ano novo, todos de branco. Alvas rosas ao mar. Pulamos as sete ondinhas. É maravilhoso.
A praia é um evento. Exige traje, preparo. É destino certo de milhões nos fins de semana e feriadões. A fé move montanhas, a praia move as massas. Mesmo nas cidades de interior, pegam a estrada para o litoral. Mas, para grande parte dos brasileiros, é dia a dia. Basta ver a demografia do nosso país, que se concentra nessa faixa. Praia é quintal, é praça. É sonho para muitos morar com vista para o mar.
É sociabilidade e festividade. Reunião de amigos e família. Passeio de namorados e namoradas. Também é lugar de conhecer pessoas novas. Quantos desconhecidos já não cunharam amizades praianas? E é lugar da cidadania: “pode olhar minhas coisas rapidinho enquanto entro na água?”. Na praia, confiamos no próximo, na reciprocidade, na gentileza.
Praia é até questão de saúde. É a vitrine dos “corpos de verão”, dos bronzeados, do bem-estar. É política de saúde mental. É necessidade — “preciso de uma praia!”. É vitrine de moda. É quadra de esportes que o brasileiro ama: frescobol, vôlei de praia, futevôlei, natação, mergulho.
É experiência gastronômica. No Rio de Janeiro, temos os nossos pratos tradicionais: espetinho, queijo coalho, mate com limão, biscoito globo, açaí, picolé, sacolé etc. Mas cada lugar tem os seus. No Rio Grande do Sul, tomam chimarrão à beira-mar. Mas, para os apreciadores, não há combinação melhor do que praia e cerveja gelada ou uma brasileiríssima caipirinha.
É subsistência. São inúmeros os trabalhadores da praia e que tiram dela o seu sustento. São comerciantes, ambulantes, pescadores, guias turísticos etc. É renda. Muitas vezes de setores ou de municípios inteiros. Quantos destinos praianos não foram afetados na pandemia? Se a praia se esvazia, muitos sofrem.
Praia também é história, é sociologia e política. Foi nessa arena, por exemplo, que muitas mulheres avançaram na liberação feminina, na luta por direitos. Como? Pelo mero uso do biquíni, que já era uma transgressão por si só. A praia é inclusão — talvez seja um de seus estandartes.
Não é à toa que virou um dos maiores lazeres dos brasileiros. Em um país marcado por amplas desigualdades, a praia — bem público de uso comum — tem grande apelo por ter uma facilidade de acesso praticamente inigualável. Todos podem ir e as condições são geralmente paritárias. O custo é normalmente baixo: uma passagem de ônibus, um estacionamento, um pouco de combustível. Isso quando não é possível ir mesmo a pé. E essa acessibilidade é empiricamente comprovável na lotação das praias nos feriadões ensolarados.
Por isso, praia é democrático. É fervor cultural. Reunião de todas as tribos. É o lugar em que se borram as linhas de classe que dividem o Brasil, onde impera a igualdade cidadã. Como um grande carnaval permanente. Onde só existem fronteiras invisíveis de onde termina o Leme e começa Copacabana na faixa de areia. A cidade toda comparece. É muito mais ágora que o planalto.
As praias têm muito a ensinar. O fortalecimento da democracia passa por elas. E é pelo seu caráter público, acessível, que elas se construíram na cultura do brasileiro — que chega a ser orgulhoso delas. Qualquer projeto que queira mudar isso não conhece o Brasil. Uma proposta desse tipo fere princípios tão caros a nossa democracia que poderia ser considerada até inconstitucional. Atenta contra nosso pacto social. Um projeto assim não é a minha praia.
Esse fenômeno praiano só é o que é no Brasil porque aqui a praia é pública, aberta e gratuita. Não é assim em todo mundo. Quantas multidões de mexicanos ocupam as areias de Cancún nos fins de semana? Não é um fenômeno lá como aqui. As praias são dos hotéis, são dos turistas! Têm barreiras ao acesso: muros de pedregulhos, redes, cercas. Quando eu, acostumado com a praia brasileira, visitei esse destino em 2019, fiquei estarrecido ao pular obstáculos para transitar na mesma faixa de areia. Em 2020, o México também se estarreceu. Veio lei federal garantindo o direito ao acesso às praias. Praia não é produto. Queremos ir na contramão?
O Brasil precisa ser uma democracia mais praiana. Mais igualitária e acessível. Aberta ao povo, pensada para o bem comum, para a difusão de direitos fundamentais e cidadania. Fundada em laços culturais e comunitários. Precisa entregar experiência.
Talvez o nosso erro tenha sido levar a capital para longe do litoral. Acho que alguns políticos em Brasília estão precisando pegar uma prainha…
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