Eduardo Bolsonaro manda o pai ir trabalhar no Cruzeiro

E, pontualmente, representou
o povo brasileiro em sua fala


O nosso deputado texas-based, hamburguer cooker, balls licker do Uncle Sam e soon-to-be cassado, finalmente parece ter recobrado a sanidade — se bem que “recobrado” dá a entender que um dia teve; “desenvolvido” cairia melhor.

Independentemente, parece que, finalmente, o deputado deprimente perdeu o batente com o ex-Presidente. Não precisa se acanhar, Eduardo. A gente também queria louvar seu pai como você louvou.

VTNC seu ingrato do c***lho

Foi bom que veio a público.

Assim você “sai do armário”. Vira um “comunista” sentido amplo — ou seja, todo aquele que não segue o “mito” ou a extrema direita cegamente, já que aquele sentido “comunista” como “revolucionário”, marxista-leninista-maoista-stalinista-qualquer-ista já caducou desde que a Guerra Fria esquentou.

Talvez o seu sequestro do país seja, enfim, jeito próprio de anunciar a troca de lado. Já que, como Silas Malafaia já deixou muito claro, apoio da direita o Eduardo Bolsonaro não tem muito. Às vezes ele queria o apoio da esquerda, aquela esquerda do passado, revolucionária, dos tempos da Guerrilha, de primeiro, segundo e terceiro mundo.

Mas, como Eduardo Bolsonaro costuma meter, frequentemente, os pés pelas mãos, certo que não soube se expressar muito bem.

O virar-a-casaca de Eduardo Bolsonaro também foi sentido quando, em entrevista recente, ele admite que se arrepende de ter dito aquele memorável bordão: “basta um cabo e um soldado…” — vocês já sabem o resto. Ele não instigava o golpismo desde então. Decerto, não quis dizer aquilo. Foi mal-interpretado.

Como agora: ele certamente não está lutando pela ruína do Brasil, pela vaidade própria, para salvar a pele de seu pai a (literalmente) qualquer custo. Ele só não está sabendo se expressar.

Deve ser de família.

Os Bolsonaro, em geral, não sabem.

Quando dizem que são Patriotas, acabam, por acidente, batendo continência para a bandeira errada. Verde-amerelo, vermelho-branco-azul, quem nunca confundiu? O norte é tão parecido com o sul.

Quando juram obediência à Constituição, não sabem ao certo a qual exatamente. A culpa não é deles. Onde está escrito que o juramento é à Constituição do Brasil e não à dos EUA? Por isso defendem a aplicação plena e irrestrita do First Amendment no Brasil (o próprio Eduardo Bolsonaro já declarou entender estar amparado por ela). É confusão, gente.

Às vezes não sabem o que dizer e, sob pressão, acabam tendo que improvisar. Como o “imbrochável” no sete de setembro — um belo uso da liberdade de expressão.

E até na própria coerência lógica são falhos. Dizem que 8 de janeiro não foi uma tentativa de golpe ao mesmo tempo que pedem anistia. Se não foi golpe, anistia a que?

Mas eles não precisam aprender a se expressar. Seus seguidores mais ferrenhos já estão fluentes no vocabulário. São capazes de desambiguar todas as frases e enxergar os significados ocultos que nós, os comunistas-lato-sensu não conseguimos ver. Eles sim conseguem interpretar os Bolsonaro.

Hoje mesmo, por pura coincidência algoritmicamente construída, vi um vídeo de um programa do Jô Soares em 2015 cujo tema, brevemente, foi o Bolsonaro. Sobre aquele episódio com a deputada Maria do Rosário.

Só não te estupro porque você não merece!

No meio da fala de Jô, que pontua o absurdo da frase, um protobolsonarista (já que ainda era o paleolítico do bolsonarismo) grita da plateia: “Viva Bolsonaro”. Jô pede para ele se identificar. O rapazote se acanha. Quando finalmente se revela, explica: “Não foi isso que ele quis dizer…” já é de hábito.

Ele nunca quer dizer o que diz. Ele geralmente não diz o que quer dizer. Até porque, se dissesse, se revelaria. Bolsonaro não quer se revelar. Quer que o revelem. Ao gosto de cada freguês. Assim, pode ser tudo sendo, ao mesmo tempo, nada. O nada que sempre foi. O militar reformado. O político de baixo clero. O maluco que ninguém dava bola. E desvia das responsabilidades do que faz em um recorrente “não fui eu”.

Bolsonaro não se fez. Bolsonaro é o que fizeram dele.

Seus filhos, igualmente.

Longe de estrategista, Eduardo Bolsonaro é um peão em um jogo muito maior que ele. Eduardo Bolsonaro é um meio. Trump tem vários motivos pessoais e políticos para comprar essa briga:

  • Evitar que o STF daqui inspire a Supreme Court de lá — ou qualquer outro movimento por punição à invasão ao Capitólio;
  • Agradar aos bilionários das big techs que apoiaram sua campanha e vêm sofrendo restrições e pressões por regulamentação no Brasil — um dos maiores mercados do mundo para as redes sociais;
  • Mostrar seu poder enquanto líder de uma “internacional fascista”, como diz Christian Lynch — ao que a prisão de Bolsonaro (o Trump des tropiques) seria uma derrota política e simbólica;
  • Obter terras raras para a indústria americana, já que a maior reserva mundial disponível é na China — e a segunda maior é aqui;

E, principalmente:

  • Atacar os Brics. O Brasil preenche todos os requisitos como o alvo perfeito. Primeiro porque atacar os RIC do bloco está fora de cogitação. China pela economia; Rússia e Índia pela aliança pessoal de Putin e Modi a Trump. Além disso, o Brasil precisa ser afastado da China para que a América se torne, novamente, quintal dos EUA. É a doutrina Monroe requentada para o projeto MAGA. E — cereja do bolo — a presidente do banco dos Brics é Dilma Rousseff, quem estaria à frente de qualquer processo de desdolarização da economia mundial.

Trump está cheio de motivos para este ataque ao nosso país. Por isso, quando Eduardo Bolsonaro jura que é o gerente desta empreitada, é risível. Ele é apenas o rapaz que frita hambúrguer. Trump só precisa que alguém frite. É conveniente.

Por essa visão “atrapalhada” — ou distorcida — de mundo, os bolsonaristas não veem o sequestro de país que Eduardo Bolsonaro tem promovido. Não veem que ele, para salvar seu pai do destino praticamente selado que o espera, vendeu até a mãe (inclusive as dos outros) a Trump. É win-win sendo os dois win para os EUA.

Cartum retratando a doutrina Monroe

Se ele sequestrou, foi sem querer. Quando ele diz que “se houver o cenário de terra arrasada, pelo menos eu estarei vingado…”, não é isso que ele quer dizer. Quando ele fala que os brasileiros deverão fazer alguns sacrifícios econômicos em nome da liberdade, ele certamente não quer dizer todos os brasileiros (somente os petistas!) nem nome da liberdade do pai dele.

Temos que ler nas entrelinhas. Interpretá-lo corretamente.

Porém, se minha interpretação “comunista” não me traiu, finalmente me senti representado por uma fala de Eduardo Bolsonaro — algo que não imaginei nem em um milhão de anos. Nosso deputado vira-casaca, secretly comunist, disse ao pai o que tantos brasileiros estão entalados para dizer há muito. Se é por essa liberdade de expressão que ele tanto luta, tem meu apoio.

Não devo ter entendido certo.

Já virá um bolsonarista para dizer que “do c***lho” é interjeição. “Ingrato” é só um apelido carinhoso que eles têm entre si. E VTNC — à la Dudu, ex-jogador do Palmeiras — só pode querer dizer “vai trabalhar no Cruzeiro”.

*

Rio de Janeiro, 22 de agosto de 2025

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