Céus! Ou melhor: chãos! Porque o avião nem chegou a decolar, mas as tensões já estavam nos ares. Sobrevoaram as redes sociais, as discussões de bares, os noticiários, as cabeças cheias e vazias e tudo mais. Constaram nos autos, nas bulas, nos dogmas, nas teses, tratados — diria Chico Buarque. E tudo por causa de um assento. Bendito assento.
Mas o que decolou mesmo foi a não-carreira da vítima. Apenas o Brasil para fazer uma influenciadora “por acidente”. Dois milhões de seguidores. Por tido a ter coragem de dizer “não”.
Talvez esteja aí a chave para o mistério. Querem saber como ela pôde. Brasileiro não sabe dizer não. Se ofende. Prefere inventar desculpas, dar jeitinho cordial. Será que com todo esse público demandante, vai procurar mais confusões? Ou vai vender cursos de como dizer “não”? Aliás, o que esse público quer? Por que a seguiram? Ninguém sabe. Nem os seguidores. Nem ela própria.
De qualquer forma, vejo que a estrela do causo foi outra: a tal “empatia”. Que tem movido corações, mãos e celulares. Foi comovida pelo heroísmo empático que a mulher sacou um celular para “dar uma lição” na tal moça. Mas não faltou empatia com a moça ao expô-la nas redes sociais? Ainda que estivesse ela errada ou não.
Em nome da empatia vale tudo?
Fato é que a moça gravada, a verdadeira vítima da empatia midiática, estava em seu direito. Num mundo em que as empresas transformaram assento de avião em commodity (como se pudéssemos viajar em pé – e falo isso baixo antes que dê ideia a alguém), à moça foi atribuído um assento aleatório ou – pior – ela desembolsou seu suado soldo para marcar aquela poltrona. Independente, era dela.
O que vale mais então? A empatia ou o direito?
Na faculdade, repete-se com honestidade vil: não é ilícito ser escroto (ou, para quem não fala carioquês, esta gíria está no campo semântico do “indecoroso”, “ordinário”, “patife”, “mau-caráter”, entre outros). Novamente, não que a moça estivesse sendo nada. Muito pelo contrário. Ela nem sequer moveu o maxilar. Falou apenas com olhares (ou desvios de olhares). Mas que fosse! Às vezes lutar por um direito pode ser interpretado como escrotidão. É um risco que se corre.
Particularmente, acho que todos temos que ser as melhores versões de nós mesmos. Ou tentarmos. E se fazer o bem não custar nada, por que não fazer? Mas a cada um cabe valorar o custo de fazer um favor. E a disposição a fazê-lo. Mas favor não é obrigação. Não é lei.
Portanto, a que pretexto a mulher (que aparentemente nem relacionada à situação era) resolveu gravar? Em nome da empatia, mas em detrimento da imagem da moça? Antes de gravar, é melhor fazer o escrutínio.
E outra: dentro de um avião, a atribuição das cadeiras cabe não aos passageiros, mas à companhia aérea. Por que não chamar um comissário de bordo? Ir ao balcão? É questão que se resolve com a empresa, não com outros consumidores. Do contrário, corre-se o risco de confusão. De heroísmos e vilanias. De empáticos contra antipáticos. Mas a responsabilidade segue sendo da companhia.
Esse caso não é nem o primeiro nem o único. A querela da cessão de assentos vai e volta. Revai e revolta. Pousa e decola. Afinal, é algo que gera efetivamente empatia, comoção. Qualquer um pode se ver nessa situação, de ambos os lados.
Porém, o grande cuidado que se deve tomar é com a tal “empatia”. Perigosa. Talvez não possa se sustentar como descriminante putativa nos casos futuros. Ou – fora do jargão – não é motivo suficiente para afastar os ilícitos (como seria uma legítima defesa, por exemplo), por mais que o sujeito ache que está com razão.
Pois de boas intenções o inferno está cheio, já diz o ditado popular. Em nome das boas intenções, da empatia (que é palavra vaga, a ser preenchida com aquilo que cada um entende pelo seu significado), vale o que? Expor os “antipáticos” nas redes sociais? A troco de que? Visualizações? Apoio? Dinheiro?
Antes vale saber se a empatia está do lado do Direito. Do contrário, quando se iluminar o sinal, ela faz melhor em sentar-se e afivelar-se. Para não acabar de pé. E ser retumbantemente vaiada em vez de aplaudida.


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